Como me tornei fotógrafo
... nunca falei pra ninguém no assunto. Mas talvez
tenha sido em algum momento de silencio, inicio da
manhã, no quintal de casa, quando algum sol filtrado
entre as folhas tocava o chão de terra, o canteiro de
amor-perfeito, e as pequenas lajes de cerâmica
vermelha que faziam o caminho mais seco em tarde de
chuva. Tinha eu uns 6 ou 7 anos e brincava com um
microscópio biológico, mas achei que ter uma câmera
fotográfica seria mais interessante do que aquele
aparato óptico cientifico: capturar a luz e não
formigas.
Não sei quanto tempo depois assisti a um documentário
na TV (não nos era permitido assistir tv em casa, a
não ser se estava doente, como naquele dia) sobre
um fotografo que percorrera o mundo com uma pequena
máquina preta e prateada: Europa, China, Japão,
Índia... As imagens me fascinaram, o fotografo me
encantou (e ainda me encanta) e mais ainda que tenham
sido feitas com tanta economia de meios. A maquina era
o passaporte para se estar em toda parte e as imagens
capturadas, um convite ao fantástico. E tudo eram
imagens do cotidiano. O cotidiano era mais
interessante que o quintal de casa.
Passou algum tempo. Nesse tempo, minha tia, visinha
nossa de porta, tornou-se uma obcecada e competente
fotógrafa e vi de longe toda aquela gente que nos anos
80 consolidou este grupo ainda fervilhante de
fotógrafos de Belém. Mas este mundo passou um pouco ao
largo do meu convívio, inexplicavelmente. À época, me
interessava mais pela música e em decidir o que faria
pelo resto da minha vida. E decidi por geologia. Mudei
de cidade duas vezes e o que mais me acompanhou nesse
tempo, remexidas pela saudade, foram imagens de Belém.
Mas não se revelam e ampliam lembranças. Precisava
daquele pequeno aparato preto e prateado que vira
quando criança num documentário. Não fotografar
tornou-se quase um sofrimento físico para mim então.
Quando finalmente ganhei meus primeiros salários como
geógolo, guardei o suficiente para comprar uma
bicicleta e uma máquina e suas lentes. Faz dois anos.
A bicicleta jaz em esquecimento num canto de casa. A
máquina não.
Com ela não fui à China, Japão ou Índia. Ainda. Mas
falo com pessoas que jamais falaria sem este álibi.
Cruzo fronteiras as quais não me permitiria ou
poderia, sem este passaporte. Tenho o prazer infantil
de me surpreender com as coisas e a luz, e o rigor do
geômetra em encontrar a composição. Tenho conhecido
gente com altos teores de humanidade, qualidade que
estou convencido ser a principal dentre as principais
para um bom fotógrafo. Com a fotografia, cada dia é um
pais novo a ser descoberto.
Esta é a história de quem está começando, de um
fotografo que sempre será amador (de quem ama) e a
cada dia menos diletante, porque todos amadurecemos.